28 de abril | Dia Internacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho
Do esforço físico à carga mental: o que a NR-1 muda na gestão dos riscos psicossociais Por Dra. Ana Carolina Peuker O trabalho mudou de natureza e, com ele, mudou também o tipo de risco ao qual as pessoas estão expostas. A exposição direta a agentes físicos, químicos e biológicos segue relevante, mas já não […]
Do esforço físico à carga mental: o que a NR-1 muda na gestão dos riscos psicossociais
Por Dra. Ana Carolina Peuker
O trabalho mudou de natureza e, com ele, mudou também o tipo de risco ao qual as pessoas estão expostas. A exposição direta a agentes físicos, químicos e biológicos segue relevante, mas já não explica, isoladamente, o padrão atual de adoecimento. Uma parte crescente do desgaste está associada à forma como o trabalho exige atenção, decisão e resposta contínua ao longo do dia.
A teoria da carga cognitiva ajuda a dar contorno a esse cenário ao partir de um princípio simples: a mente humana tem capacidade limitada para processar informações. Quando esse limite é ultrapassado, a qualidade da compreensão, da memória e da tomada de decisão diminui. O que era originalmente um conceito aplicado à aprendizagem passou a oferecer uma chave importante para compreender o funcionamento do trabalho contemporâneo.
Hoje, uma agenda típica envolve múltiplas camadas simultâneas. Reuniões em sequência, trocas assíncronas, decisões rápidas, revisões contínuas e interrupções frequentes passam a disputar o mesmo recurso finito: a atenção. O trabalho deixa de ser linear e passa a ser fragmentado. A cada interrupção, há um custo de retomada. A cada mudança de prioridade, há perda de continuidade. Ao final do dia, o esforço acumulado é alto, mas a sensação de conclusão é reduzida.
Esse padrão não está necessariamente ligado a mais trabalho, mas a uma forma de organização que amplia a carga cognitiva sem ampliar a qualidade da entrega. Parte relevante desse efeito vem do aumento da carga extrínseca, composta por reuniões redundantes, excesso de informação, múltiplos canais e demandas concorrentes que consomem capacidade mental sem contribuir diretamente para o resultado. Ao mesmo tempo, o espaço para análise, aprendizagem e decisão consistente se reduz.
Os efeitos desse funcionamento já aparecem em indicadores concretos. Jornadas extensas estão associadas a cerca de 745 mil mortes por ano no mundo, especialmente por doenças cardiovasculares e acidente vascular cerebral. Transtornos como ansiedade e depressão levam à perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho anualmente. Estimativas globais também indicam que cerca de um em cada cinco trabalhadores apresenta sinais de burnout. Esses dados não estão apenas relacionados ao tempo de trabalho, mas à forma como ele é estruturado.
No cotidiano, essa dinâmica se manifesta de maneira direta. Surge na necessidade de reler uma mensagem para compreender o conteúdo, na dificuldade de sustentar foco em uma tarefa, na alternância constante entre demandas e na sensação recorrente de que muito foi iniciado, mas pouco foi concluído. A mente passa a operar em modo de resposta contínua, com menor capacidade de aprofundamento.
Esse cenário já começa a ser incorporado no campo regulatório. No Brasil, a NR-1 passa a incluir explicitamente os fatores de riscos psicossociais no gerenciamento de riscos, reconhecendo que carga de trabalho, ritmo, autonomia e clareza fazem parte da saúde e segurança no trabalho. A ISO 45003 oferece diretrizes para identificar, avaliar e gerir essas condições de forma estruturada, com foco na organização do trabalho.
Essa mudança exige revisão prática. Reduzir redundâncias informacionais, dar previsibilidade às prioridades, limitar a sobreposição de reuniões e criar intervalos reais entre demandas cognitivas passam a ser decisões de gestão. A forma como o trabalho é desenhado influencia diretamente a qualidade da decisão, o nível de erro e a sustentabilidade do desempenho ao longo do tempo.
Neste 28 de abril, lembrar as vidas perdidas é necessário. Também é um momento oportuno para reconhecer que uma parte relevante dos riscos atuais não está no ambiente físico, mas na forma como o trabalho ocupa a mente. O limite cognitivo não mudou. O que mudou foi a intensidade e a forma como ele é exigido.
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Fontes e referências
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