Burnout na manchete, risco no sistema

No último domingo, a Folha de S.Paulo estampou um dado que merece atenção institucional: os afastamentos por burnout cresceram 493% entre 2021 e 2024 no Brasil. Em apenas três anos, as licenças passaram de 823 para 4.880 casos, com impacto direto sobre a Previdência Social e sobre o sistema público de saúde. A manchete sintetiza […]

Por Ana Carolina Peuker

No último domingo, a Folha de S.Paulo estampou um dado que merece atenção institucional: os afastamentos por burnout cresceram 493% entre 2021 e 2024 no Brasil. Em apenas três anos, as licenças passaram de 823 para 4.880 casos, com impacto direto sobre a Previdência Social e sobre o sistema público de saúde.

A manchete sintetiza algo que já aparece no cotidiano das empresas, dos serviços de saúde e das famílias. O avanço do esgotamento profissional acompanha modelos de trabalho marcados por alta exigência cognitiva, pressão contínua por desempenho e pouco espaço para recuperação física e emocional. A própria reportagem aponta subnotificação, o que indica que os números oficiais não capturam toda a extensão do problema.

Esse cenário dialoga diretamente com a entrada dos fatores de riscos psicossociais no campo da gestão de riscos ocupacionais, conforme previsto na NR-1. Ainda assim, voltam a circular rumores sobre um possível novo adiamento da norma. O contraste é evidente: os dados de adoecimento escalam, os custos públicos aumentam e a resposta estrutural permanece em suspenso.

Quando o burnout ocupa a capa de um dos principais jornais do país, o esgotamento deixa de ser tratado como uma questão individual ou clínica isolada. Passa a ser reconhecido como um risco estrutural, com efeitos econômicos, previdenciários e institucionais claros. A mensagem é direta: atuar apenas no afastamento transfere o custo para o Estado e mantém intactas as condições de trabalho que seguem produzindo adoecimento.

Do ponto de vista da gestão, o debate já não pode se limitar ao tratamento do dano. A ausência de políticas consistentes de prevenção, monitoramento e intervenção sobre fatores de riscos psicossociais amplia a pressão sobre sistemas públicos e privados e posterga decisões que poderiam reduzir custos humanos e financeiros no médio e longo prazo.

A pergunta que se impõe não é se o burnout é um problema relevante. Os dados já respondem isso. A questão central é outra: até quando será possível adiar a gestão dos fatores de riscos psicossociais sem que o custo recaia, de forma cada vez mais explícita, sobre toda a sociedade?

Para organizações, gestores e formuladores de políticas, o tema deixou de ser secundário. Ele passou a integrar o núcleo das decisões sobre sustentabilidade do trabalho, saúde coletiva e responsabilidade institucional.

Link para a matéria completa: https://www1.folha.uol.com.br/amp/mercado/2026/01/afastamentos-p

Veja mais

A nova agenda da IA em saúde passa pela saúde mental

Durante muito tempo, falar de inteligência artificial em saúde significava discutir eficiência, automação de processos e redução de custos. Esse ciclo começa a se encerrar. A IA deixou de ser um tema periférico de inovação para se tornar uma prioridade estratégica, com impactos diretos sobre decisões humanas, cuidado e responsabilidade institucional.OpenAI anunciou o ChatGPT Health: […]

O que a agenda da Psicologia para 2026 nos diz sobre o presente

A cada início de ano, a American Psychological Association (APA) publica uma lista com as principais tendências que devem marcar a Psicologia. Esse monitor funciona como um termômetro qualificado do campo. Não se trata de futurologia, mas do resultado de consultas a especialistas, revisão de pesquisas e escuta de profissionais que atuam na linha de […]

Da fila ao chat: o que 2025 revelou sobre saúde mental no Brasil

Em 2025, a saúde mental no Brasil mudou de lugar. A escuta deixou de acontecer prioritariamente em serviços, escolas, empresas ou consultórios e passou a ocorrer, para muitas pessoas, em interfaces digitais. Esse deslocamento não foi fruto de escolha qualificada, mas da escassez. Faltam profissionais, serviços públicos são insuficientes e as desigualdades de acesso persistem. […]