O fim do expediente e a era do trabalho sem pausa

A ideia de jornada fixa perdeu força. O expediente das 9h às 17h, que por décadas organizou a rotina de milhões de pessoas, já não representa o padrão real de trabalho. Relatórios recentes, como o estudo da Microsoft com base em dados de produtividade digital, mostram que o tempo de trabalho se espalhou pelo dia. Muitos profissionais agora vivem em ciclos fragmentados, com múltiplos picos de atividade, inclusive à noite. O horário comercial, tal como conhecíamos, foi substituído por uma lógica de conexão contínua.

Por Ana Carolina Peuker

Essa mudança não veio acompanhada de estrutura clara. Ao contrário, ela tem criado um ambiente de incerteza. A flexibilidade, que deveria ampliar a autonomia, muitas vezes significa estar disponível o tempo todo. As pausas são interrompidas por mensagens, o descanso é invadido por e-mails e a sensação de estar sempre devendo algo se tornou frequente. Trabalhar virou algo permanente, mesmo fora do horário.

Essa nova realidade tem impacto direto na saúde mental. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais mais que dobraram entre 2014 e 2024, passando de 203 mil para mais de 440 mil casos. Ao mesmo tempo, cresce o número de profissionais que relatam exaustão, perda de foco e dificuldade para desconectar.

O excesso não está apenas no volume de trabalho, mas na falta de limites. Quando não há definição clara de início e fim, a jornada se torna emocionalmente desgastante. A ausência de previsibilidade, a pressão constante por resposta imediata e a sobreposição de tarefas impactam diretamente o desempenho e os vínculos no ambiente de trabalho.

Em diagnósticos conduzidos pela Bee Touch, a sobrecarga digital aparece com frequência como fator de risco psicossocial. Equipes que mantêm bom desempenho técnico, mas operam com sensação crônica de urgência, mostram altos níveis de estresse e queda de engajamento. A plataforma AVAX, desenvolvida com base em dados comportamentais e critérios técnicos, permite identificar esses padrões antes que se tornem afastamentos ou pedidos de desligamento.

A transformação digital trouxe velocidade, mas também exige novos mecanismos de governança. O tempo precisa ser tratado como um recurso institucional. Não apenas o tempo das entregas, mas o tempo da pausa, da escuta, do descanso planejado. Empresas que estruturam suas rotinas com base nesses critérios conseguem preservar a saúde mental e sustentar resultados com mais consistência.

A entrada em vigor da nova NR-1 em 2026, que exige o mapeamento de riscos psicossociais, confirma essa mudança. A legislação reconhece que o ambiente de trabalho afeta diretamente a saúde emocional. Não basta mais cumprir metas. É necessário cuidar das condições em que elas são alcançadas.

O futuro do trabalho não será determinado apenas por ferramentas ou modelos híbridos. Ele depende da capacidade das empresas de reconhecer que o desempenho sustentável exige limites claros, jornadas equilibradas e decisões baseadas em dados. Trabalhar não pode significar estar sempre online. É preciso recuperar o direito ao tempo.

Referência: https://www.microsoft.com/en-us/worklab/work-trend-index/breaking-down-infinite-workday

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