Por dentro da mente dos líderes: O que realmente acontece no C-Level?

Em todos esses anos trabalhando com líderes e acompanhando de perto o dia a dia das empresas, percebi algo muito claro: cuidar da saúde mental do C-Level não é só uma necessidade, é a base para que tudo funcione bem.

Por Ana Carolina Peuker

Em todos esses anos trabalhando com líderes e acompanhando de perto o dia a dia das empresas, percebi algo muito claro: cuidar da saúde mental do C-Level não é só uma necessidade, é a base para que tudo funcione bem. Já vi muitos executivos brilhantes começarem a desmoronar porque estavam tão focados nos resultados que esqueceram de si mesmos. Parece clichê, mas é real. A pressão é enorme, as decisões são difíceis, e o peso de carregar uma empresa nas costas acaba deixando marcas profundas.

E sabe o que mais me chama atenção? O isolamento. Não é fácil ser quem toma as decisões finais, quem precisa manter a cabeça fria o tempo todo. E com isso, vem a solidão. Não dá para compartilhar tudo com a equipe, e os pares muitas vezes enfrentam os mesmos dilemas, mas também sem espaço para uma conversa verdadeira. Esse isolamento aumenta o estresse, e aos poucos, se não houver um cuidado, o esgotamento chega. E não demora.

Além disso, a falta de harmonia entre trabalho e vida pessoal é uma questão que aparece o tempo todo nas conversas que tenho com esses líderes. O compromisso com o sucesso da empresa acaba tirando o tempo para a família, para os amigos e, principalmente, para si mesmo. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi “eu estou cansado, mas preciso continuar”. É uma linha tênue entre estar dedicado e estar à beira do colapso.

Mas, ao longo dessas experiências, vi também o poder que um ambiente de suporte pode ter. Quando as empresas criam espaço para que esses líderes possam falar sobre suas dificuldades, quando existem programas de bem-estar que de fato funcionam, a transformação é incrível. E não estou falando de soluções mágicas, mas de oferecer ferramentas práticas, como treinamentos focados em lidar com o estresse e desenvolver resiliência integrados a um sistema robusto de gestão de riscos psicossociais.

Também defendo sempre a importância de políticas que promovam mais harmonia na vida desses líderes, como permitir horários mais flexíveis ou um modelo híbrido de trabalho. Vi de perto o impacto que essas medidas têm na qualidade de vida e no desempenho das pessoas. É incrível como pequenas mudanças podem trazer um alívio enorme.

Eu me lembro muito da frase de Amyr Klink: “Um homem precisa viajar… para entender o que é seu.” E com esses líderes não é diferente. Eles precisam fazer essa viagem interna, se reconectar consigo mesmos, com suas emoções, para poder liderar com clareza e propósito. Investir na saúde mental dos executivos não é só sobre garantir que eles estejam bem – é sobre garantir que a empresa tenha uma liderança sólida, capaz de transformar desafios em oportunidades, e de seguir em frente, mesmo em águas turbulentas.

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