Quando o excesso de trabalho atinge o cérebro

Uma das ideias mais persistentes no mundo do trabalho é a de que mais horas equivalem a mais entrega. A lógica é simples, quase sedutora: quem trabalha mais, produz mais. O problema é que o corpo e, especialmente o cérebro, não operam assim. Um estudo recente conduzido por pesquisadores sul-coreanos, publicado pela Time em julho […]

Por Ana Carolina Peuker

Uma das ideias mais persistentes no mundo do trabalho é a de que mais horas equivalem a mais entrega. A lógica é simples, quase sedutora: quem trabalha mais, produz mais. O problema é que o corpo e, especialmente o cérebro, não operam assim.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores sul-coreanos, publicado pela Time em julho de 2025, mostra que jornadas acima de 52 horas por semana provocam alterações reais na estrutura cerebral. As áreas afetadas incluem regiões responsáveis pela atenção, memória, regulação emocional e tomada de decisão.

Os achados não são apenas estatísticos. Eles têm implicações concretas para o cotidiano profissional: menor capacidade de concentração, aumento da irritabilidade, dificuldade de organizar pensamentos simples e maior risco de conflitos interpessoais.

Os pesquisadores também observaram impactos em áreas que interferem diretamente na estabilidade emocional. As alterações podem indicar aumento da ansiedade, menor tolerância ao estresse e dificuldades em interpretar emoções ou sustentar vínculos com outras pessoas.

A dúvida que permanece é se esses efeitos são reversíveis. O neurocientista Dr. Jaelim Lee, responsável pelo estudo, afirma que ainda não se sabe se as mudanças são permanentes ou não. Estudos longitudinais serão necessários para avaliar os efeitos no longo prazo e verificar se ajustes na carga de trabalho seriam capazes de reverter os danos observados.

A ideia de que saúde mental se resolve com discursos sobre resiliência perde força diante desses dados. Não se trata de mindset, de engajamento ou de força de vontade. O que está em jogo é a base fisiológica da atenção, da regulação emocional e do raciocínio, tudo aquilo que sustenta qualquer tipo de desempenho profissional.

Para lideranças e empresas, a mensagem é clara. Sustentar uma cultura de horas excessivas pode até parecer eficiente no curto prazo. Porém, a médio e longo prazo, compromete justamente aquilo que se espera das equipes: clareza, foco, estabilidade e boa convivência. Reduzir jornadas não é gentileza. É estratégia baseada em evidência.

Referência:
Lee, J. et al. (2025). “Working Too Much Can Change Your Brain.” Time Magazine, julho 2025. Disponível em: time.com/7285894/working-too-much-brain-effects

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