Utilitarismo, IA e o futuro da saúde mental
A inteligência artificial (IA) tem avançado rapidamente como ferramenta de apoio na saúde mental, oferecendo soluções como triagem automatizada, psicoeducação e monitoramento de risco. Frente à isso, como avaliar, do ponto de vista ético, se estamos no caminho certo? A resposta talvez possa ser encontrada no pensamento de John Stuart Mill, filósofo do século XIX […]

A inteligência artificial (IA) tem avançado rapidamente como ferramenta de apoio na saúde mental, oferecendo soluções como triagem automatizada, psicoeducação e monitoramento de risco. Frente à isso, como avaliar, do ponto de vista ético, se estamos no caminho certo? A resposta talvez possa ser encontrada no pensamento de John Stuart Mill, filósofo do século XIX e autor da obra O Utilitarismo. Segundo ele, uma ação é moralmente correta quando promove a maior felicidade para o maior número de pessoas (que fique estabelecido: a partir de um entendimento comum, baseado em evidências históricas e científicas, e não determinadas por um grupo específico de pessoas – mas isso é história para outro artigo). O critério da ética deixa de ser o dever ou a intenção, e passa a ser o impacto real das ações sobre o bem-estar coletivo.
A felicidade como finalidade ética
Para Mill, o objetivo final da moralidade é a promoção da felicidade, entendida como prazer duradouro e ausência de sofrimento. No contexto da saúde mental, isso significa criar condições para que as pessoas possam viver com equilíbrio emocional, propósito e qualidade de vida. A IA, quando bem aplicada, tem potencial para contribuir de forma significativa com esse ideal, ampliando o acesso e reduzindo o sofrimento O caminho parece claro: se uma tecnologia pode ampliar o acesso ao cuidado emocional, especialmente em contextos onde psicólogos têm sua atuação reduzida, e diminuir o sofrimento de forma segura, ela é moralmente justificável. Uma solução bem treinada, com curadoria técnica e guardrails específicos, pode fazer mais bem ao coletivo do que sua ausência.
Escala com propósito
A grande vantagem da IA é a capacidade de escalar o cuidado emocional, atingindo populações que não teriam acesso às intervenções tradicionais. Esse impacto coletivo é coerente com os princípios utilitaristas. Ferramentas tecnológicas não devem apenas aliviar sintomas, mas fomentar o autoconhecimento, a educação, a autonomia emocional.
Justiça, direitos e segurança
Mill reconhece que a justiça é um componente essencial do bem-estar coletivo. Isso reforça que soluções baseadas em IA precisam respeitar princípios como privacidade, transparência, não-discriminação e segurança de dados. Um sistema que viola direitos individuais, ainda que bem-intencionado, não promove felicidade real. Ao contrário, gera medo, desconfiança e sofrimento.
Educação emocional e formação moral
A moralidade, para Mill, também é fruto da educação. Isso conecta diretamente a IA com a função psicoeducativa que ela pode ter no que se refere à saúde mental: ensinar sobre emoções, comportamentos, tomada de decisão e autorregulação. Soluções nessa linha podem ser aliadas no desenvolvimento emocional, desde que construídas com responsabilidade, ciência e sensibilidade humana.
Compromisso com o bem comum
A filosofia de Mill não proporia que a IA substituísse psicólogos ou outros profissionais de saúde mental, mas que fosse um instrumento ético, transparente e útil na promoção do bem-estar psicológico em escala, também contribuindo para a diminuição da desigualdade social. Se projetada com responsabilidade, a IA pode ser uma das mais significativas expressões contemporâneas do ideal utilitarista: fazer o bem, para o maior número, da melhor forma possível.
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