Da fila ao chat: o que 2025 revelou sobre saúde mental no Brasil

Em 2025, a saúde mental no Brasil mudou de lugar. A escuta deixou de acontecer prioritariamente em serviços, escolas, empresas ou consultórios e passou a ocorrer, para muitas pessoas, em interfaces digitais. Esse deslocamento não foi fruto de escolha qualificada, mas da escassez. Faltam profissionais, serviços públicos são insuficientes e as desigualdades de acesso persistem. […]

Por Ana Carolina Peuker

Em 2025, a saúde mental no Brasil mudou de lugar. A escuta deixou de acontecer prioritariamente em serviços, escolas, empresas ou consultórios e passou a ocorrer, para muitas pessoas, em interfaces digitais. Esse deslocamento não foi fruto de escolha qualificada, mas da escassez. Faltam profissionais, serviços públicos são insuficientes e as desigualdades de acesso persistem. Nesse espaço vazio, ferramentas conversacionais passaram a funcionar como primeiro ponto de apoio emocional, sobretudo entre jovens e populações vulneráveis.

A ampla adoção veio antes da governança. Soluções apresentadas como bem-estar passaram a exercer funções de cuidado sem critérios claros, sem supervisão clínica e sem articulação com redes reais de atenção. A lógica do engajamento, baseada em permanência e validação contínua, mostrou-se incompatível com princípios básicos da saúde mental.

O debate avançou quando ficou evidente que disponibilidade não equivale a cuidado. No Brasil, onde a saúde mental já é marcada por estigma e desigualdade, a substituição do cuidado humano por interfaces privadas amplia riscos.

Nesse contexto, o Conselho Federal de Psicologia acaba de lançar duas publicações centrais para qualificar esse debate. Os guias Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável e Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental sistematizam evidências, riscos e orientações técnicas, reforçando que o uso da IA exige cautela, responsabilidade profissional e alinhamento ao Código de Ética.

A IA é um caminho sem volta. O desafio não é rejeitar a tecnologia, mas definir limites, critérios e integração institucional. A IA já está presente na saúde mental. A questão central é sob quais condições, com qual responsabilidade e com que compromisso com o cuidado humano?

Com a NR-1 incorporando os fatores de riscos psicossociais ao gerenciamento de riscos ocupacionais a partir de 2026, como as organizações lidarão com soluções digitais que podem capturar dados, fornecer orientações e influenciar a saúde mental fora de qualquer governança formal?

Para acessar as cartilhas do CFP:

🔹Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental

https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2025/12/Cartilha_chatbot_IA_A5-1.pdf

🔹Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável

https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2025/12/Cartilha_chatbot_IA_A5-1.pdf

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